sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Motivos para ver: Praia do Futuro

          
          Difícil escrever sobre este filme. Não é do tipo que tem uma história pronta e personagens de fácil compreensão. Acredito que assim como qualquer obra de arte, "Praia do Futuro" poderá significar coisas diferentes para outras pessoas, cada um verá algo, sentirá algo, não há uma única maneira de encará-lo e compreendê-lo, portanto, naturalmente, uns poderão amá-lo, outros, odiá-lo, consequência desta trama que é tão subjetiva, tão ampla, tão aberta. Escrevo aqui, o que vi, e só digo de antemão, fiquei extasiado.
E como era possível de se esperar, visto que estamos falando de um filme de Karim Ainouz, trata-se de um longa que te propõe uma trama forte, que não te poupa de nada que faça parte daquele universo, que não possui nenhum tipo de filtro, mas que também recompensa aqueles que estiverem dispostos a acompanhar a sua trajetória sem preconceitos.

          A trama é dividida em três capítulos, O Abraço do Afogado, Um Herói Partido Ao Meio e Um Fantasma Que Fala Alemão. Nome sempre citado entre os mais importantes do cinema brasileiro, Karim Ainouz está de volta com o seu filme mais sofisticado. Caracterizado por seu cinema cru, de difícil digestão, Praia do Futuro representa um amadurecimento do diretor, que permanece com a sua linha naturalista ao extremo, sem pudores, mas com uma consciência maior do que e como mostrar.

          Praia do Futuro começa com o dia em que o salva-vidas Donato (Moura) perde para o mar pela primeira vez. Na tentativa de socorrer dois turistas alemães, apenas um sobrevive e, assim, começa a ligação do protagonista com o alemão Konrad (Schick), que faz Donato trocar Fortaleza por Berlim. Donato se muda para a cidade de inverno cinza e frio, longe do mar cearense e também de Ayrton (Barbosa), seu irmão mais novo.


          Donato abandona completamente o passado para se adaptar e viver uma vida em que sua personalidade não esteja atrelada ao que os outros projetam nele. Praia do Futuro mostra de maneira sensível e contundente a liberdade  que a mudança proporciona. E a fotografia que contrasta as cores do Nordeste brasileiro com a frieza do clima alemão também dá conta dessa transformação.

            Muito do sucesso do filme se deve aos seus personagens, todos extremamente bem construídos com seus dilemas e temores. Donato que pode até vender uma imagem segura no início do filme, parece desde sempre insatisfeito, como se alguma coisa estivesse faltando na sua vida. Aliás, pertencimento é uma ótima palavra para definir o que se passa na cabeça de Donato, pois na maior parte do tempo ele não parece saber dizer a que lugar pertence. Pertence a água? Pertence a praia? Pertence a Berlim? Difícil dizer!

         
A fuga e o abandono, temas que Aïnouz aperfeiçoou na sua carreira sob uma perspectiva feminina, em O Céu de Suely e Abismo Prateado, ganham aqui contornos mais pessoais e ajudam a mostrar a vulnerabilidade dos personagens, e, de certa forma, humanizam o salva-vidas, visto pelo irmão mais novo como um super-herói.

          Uma marca do roteiro são as inúmeras elipses, algumas bem radicais, que pontuam todo o filme. Ao mesmo tempo em que elas abrem para o espectador a possibilidade dele imaginar os acontecimentos suprimidos, também provocam pequenos choques pelas quebras inusitadas das expectativas usuais .

          Lidando com o tema da homossexualidade sem sentir a necessidade de incluir passagens que discutam o preconceito, Praia do Futuro traz indivíduos bem resolvidos quanto à própria orientação sexual.  Por outro lado, aos poucos o filme leva o espectador a perceber de maneira sutil que talvez o personagem de Wagner Moura não experimentasse exatamente a paz de espírito que buscava demonstrar, o que se torna, de certa forma, motor da narrativa. Ainda que se mostre feliz por estar com Konrad, aqui e ali notamos a inquietação do protagonista.


            Retratando a humanidade e o caráter de Donato através de pequenos momentos, Wagner Moura ainda exibe uma integridade artística admirável ao não hesitar em se entregar às sequências de sexo, que são fundamentais para que percebamos a magnitude da atração entre os dois amantes. A mesma integridade, claro, vale para Clemens Schick, que ilustra bem o afeto de Konrad pelo outro e sua dor diante dos obstáculos que enfrentam. Jesuíta Barbosa é uma revelação, o filme alcança seu melhor momento quando o ator entra em cena. O encontro entre os dois irmãos é memorável, e a tensão e comoção que existe no olhar dos dois atores é a prova do quanto compreenderam seus personagens e quanto deram o melhor por eles.


           Mais do qualquer coisa é um filme de sensações, onde as imagens e os sons causam impacto, tristeza, emoção,  muito sentimento, é muito humano ao relatar as fragilidades de seus personagens, é complexo, é profundo. É também um filme introspectivo, silencioso, intimista, melancólico, é delicado ao mesmo tempo em que é puro caos, é seco ao mesmo tempo em que é poético, fala de coragem através daqueles que sentem medo, fala de amor através daqueles que são brutos, fala de ira através daqueles que esperam por um abraço. Vi uma obra como poucas, vi um cinema nacional como quase nunca tive a oportunidade de ver e sentir. Um trabalho de arte, um filme a ser lembrado.


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